15.6.11

Homenagem para Henfil

Quem acompanha esse blog sabe que sou fã do cartunista Henfil, inclusive ele foi o tema da minha monografia.
Em seu site o cartunista Millôr faz textos em homenagem a seus grandes amigos, e esse é o texto que ele escreveu sobre Henfil.

Henrique (Meandro, Berro, Atro,
Labirinto, Breu, Dilaceração, Preto e
Negro) de Souza Filho. Henfil



Evidentemente um iluminado, Henfil, raivoso, lúcido, claro, foi dotado da graça especial da criação - onde apontava seu dedo de Criador fazia cair sobre os ratos o raio do riso vingador e brotar a comunhão dos injustiçados. Pagou por isso com o preço da tragédia. Os deuses, ninguém ignora, são invejosos.

A primeira vez que foi decapitado, Henfil perdeu a cabeça. Mas aí já era tarde; passava do meio-dia. Quando o indulto chegou, ele ficou amigo do carrasco, pegou a lista dos defuntos e vive disso até hoje. O futuro, para Henfil, não tem mistério, mas a recíproca é verdadeira. Por isso as lentes de contato. Que usa nos olhos como todo mundo. Estadista nato, escolheu nascer em Minas, o estado mais mineiro do Brasil. Desde cedo percebeu que berro não enche barriga mas desemprega psicanalistas. Deu o seu, tendo o cuidado de levar gravador, para a repetição sem esforço. Decidido a tirar dos ricos para dar aos pobres, acabou descobrindo que os ricos não concordavam e os pobres estavam contra por acharem que estava roubando o que um dia seria deles. Daí propor a abolição do imposto e a criação de um facultativo.

É tão liberal que, se um dia for presidente, pretende tornar a permissividade obrigatória. Humorista desde os oito anos, só descobriu isso aos catorze, quando, numa reunião de intelectuais de esquerda, conseguiu uma gargalhada estrondosa pronunciando certinho a palavra democrata. Realista, acha que os governos devem ser escolhidos por industriais, com votos duplos para os proprietários de agências de publicidade. Tem metade de 56 anos, porém ninguém lhe dá mais do que o dobro de quatorze. A julgar pelos cabelos, bigodes, sobrancelhas e outros pelos visíveis, é um animal hirsuto. Mas o corte de suas roupas mostra muito bem que o hábito desfaz o monge. Pouco se sabe a respeito dos seus primeiros anos de vida a não ser que sempre se recusou a viver cronologicamente.

Com um ano fez quatro, fez três depois, aos sete comemorou os oito e até hoje ainda tem dois não computados, dezessete e 21, que pretende comemorar aos 38 e aos 63. É gago, quer dizer, quando gagueja. Quando ri, porém, é sorridente. Técnico em antigüidades, prefere-as bem mocinhas. Mas seu preto-que-ri antes não ria. Aliás nem existia. Míope, enxerga longe e prefere olhar de perto. Como São Tomé, quer ver para crer mas quando vê, não acredita. E seu valor nem ele próprio avalia. Tem um tédio estridente, gosta de coçar a omoplata e acerta sempre no palpite triplo. Nunca esteve implicado com a lei, mas vive implicando com ilegalidades. Sua falta de adaptação condena-o definitivamente à originalidade. Qualquer de suas histórias toma dias e dias de pesquisa até não se basear absolutamente em nada. É a favor do parto masculino e da necrofilia entre adultos, desde que com consentimento mútuo. Adora poltrona, tomada de eletricidade, riso baixinho e brincadeira sem graça.

Quando nasceu, sua mãe o olhou durante muito tempo e declarou aos jornais: "Não é nada disso". Já o pai tinha ido ao Fla-Flu e só voltou seis anos depois, no fim da briga. Mas continua insistindo que não usa Henriquinho segundo o projeto original. Não fuma, não bebe, nem joga, mas não pode ver um precipício. Reage sempre, mas não na mesma noite. Sente muita saudade do futuro e acha que este país tem um enorme passado pela frente. No dia em que percebeu que o mundo era cor-de-rosa, pegou um lápis e desenhou os Fradinhos. E aí todos disseram: esse menino vai longe. Mas eu aposto que ele fica aqui. Acha que quem sai na chuva é pra se secar, que é mais fácil pegar um coxo do que um mentiroso e vive mexendo nesse mato pra ver se sai coelho. Caladão sempre que não fala, quando fala muito é até um pouco loquaz. Já tentou tudo, mas tudo não quis nada com ele. Adora uma briga, sobretudo pra apartar. De vez em quando visita um cemitério só pra ver como é que vai ser. Chegou ao Rio sem ter onde cair morto e na verdade só se salvou porque era muito vivo.

Gosta de mulher, o que se vê melhor pela raiva com que está com os homens. Acredita em open-house mas, por via das dúvidas, já comprou uma tranca. Vive brincando com o fogo e não passa um mês sem que chamem os bombeiros. Fala baixo, olha muito e seu ouvido esquerdo é mouco. O outro é de mercador. Seu sábado cai sempre antes do domingo e espera conseguir isso também da sexta-feira. Gosta de retificar, por isso usa borracha. Mas não gosta que interpretem o seu silêncio porque, quando consente, fala. Sonha com rios de dinheiro, porém continua acordando bem pobre e bem molhado. Fala pouco de si próprio, mas muito de si impróprio. E na hora de tomar banho nunca tira o corpo fora. Diz que, quando chegar o Juízo Final vai impetrar habeas corpus. Acredita em escada, avião e elevador, só na subida; na descida às vezes exageram. Mais baixo do que uns, mais alto do que outros, é médio em média. Desenha com as duas mãos, chuta melhor com o pé esquerdo e o nariz reserva para meter onde não é chamado. Respeita a meteorologia (aquela que faz 40 graus à sombra) e pretende sempre rir melhor. Ou, se não der, por último.

Veja aqui o site do Millôr

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